30 de mai de 2014

As Notas do Sobrevivente - III

10 – Uivos

   Eu não deveria ter escrito sobre lobos. Acho que acabei os chamando de certa maneira, pois fiquei um o dia inteiro me escondendo de uma alcateia. Nos filmes não parecia ser tão assustador assim. Eu viu eles
   Eu os avistei quando estava a caminho da biblioteca para pegar mais um livro. Acho que tinha uns seis ou sete deles. Pelo jeito que cheiravam o ar, pareciam perceber que eu estava por perto, então tratei logo de sair dali. Não sei se deixei algum tipo de rastro para trás, porque pra onde eu ia, eles me alcançavam em menos de cinco minutos depois. Corri para detrás de um balcão de uma loja de conveniência e fiquei deitado em meio à poeira achando que estaria protegido. Talvez tenha sido o maior erro que cometi em toda a minha vida. Nunca me senti tão vulnerável e estúpido ao mesmo tempo. Os lobos logo estavam passando pela rua em frente à loja, com orelhas atentas e focinhos cheirando o asfalto, eles sabiam que tinha comida por perto.
   Um deles entrou na loja. Escutei passos cautelosos pisando nos fragmentos de vidro da janela que estava quebrada, o ruído que ele fazia quando cheirava parecia estranhamente alto. Segurei a respiração e logo os passos cessaram. Gotículas de suor desciam frio de todos os meus poros e tremi ao ouvir um leve rosnado... Mas foi só isso. Como se os outros membros de sua família tivessem o chamado, ele logo se virou e saiu de lá, provavelmente decepcionado por ter deixado sua presa escapar bem debaixo do seu focinho.
   Não estava com pressa, então continuei deitado por o que pareceu ser mais de duas horas seguidas. O dia escuro começou a ser substituído por uma noite escura assim que a fraca esfera amarela se despedia. Era como uma velha bateria que precisava descansar o máximo possível para poder brilhar tudo o que podia algumas horas depois.
   Voltei para o hotel com passos apressados, com a sensação de que uma das criaturas pudesse pular no meu pescoço a qualquer momento, mais possivelmente aquele mesmo lobo que não pensara em checar atrás do balcão. Ele poderia ter esperado o tempo todo até eu sair do meu esconderijo e me capturar, assim levando minha carne para o macho alfa, num gesto triunfante de provar seu valor.
   Se isso tivesse mesmo acontecido, não estaria aqui escrevendo neste caderno de capa de couro surrada preciso de um caderno novo. Torci para que a alcateia apenas estivesse realizando uma busca e logo partissem para outra cidade, mas minhas preces não foram atendidas. Quando a lua estava alta no céu, pude ouvir uivos. Foi a coisa mais arrepiante que ouvi em toda minha vida. Talvez aquilo fosse um aviso para eu empacotar minhas coisas e ir embora porque aquela cidade já não era mais segura.

 11 – Lembranças

   Como a comida que encontrei está acabando e uma apreensão crescente começou a tomar conta de mim desde o incidente com os lobos, decidi fazer uma busca geral na cidade, pelo menos nas redondezas do hotel para ver se achava alguma coisa.
   Achei mais um pouco de comida depois de várias horas visitando várias casas, mas em uma dessas, algo me chamou mais atenção.
   A casa ficava em uma rua atrás do hotel. Não possuía muitos detalhes marcantes nem nada que a fizesse parecer especial, mas ela tinha um charme, algo convidativo que não sei explicar. Então, decidi que ela seria a próxima a ser revistada.
   Ela tinha dois andares. Decidi revistar o primeiro piso antes. A residência estava um pouco corroída pelo tempo, como todos os outros lugares desta maldita cidade.
   Adentrando na sala de estar, encontrei um porta-retrato. Nele, estava a foto de uma típica família feliz, ou aparentemente feliz. Uma mulher, um homem, uma menina que devia ter no máximo uns quinze anos e um cachorro. No momento, congelei. Será que era aquele cachorro que eu encontrara morrendo na estrada no caminho para cá? Não, não podia ser. Ele era da mesma cor, mas... Olhei mais atentamente para a foto para ter certeza. Sem dúvida o qual eu encarava nesse momento era mais novo. Depois, pensando melhor, isso apenas aumentava a possibilidade de ser mesmo aquele cão. Mas como será que um cachorro poderia sobreviver tanto tempo sozinho em uma cidade abandonada? Anos sem ninguém para alimentá-lo? Ou talvez só houvesse passado meses desde que tudo havia ido para a merda e eu, sem completa noção de tempo, não soubesse. Mas a verdade é que eu não quero saber. Todo o dia parece uma eternidade neste inferno e toda a vez que paro pra pensar sobre o tempo eu fico com dor de cabeça.
   Estou cansado demais agora, amanhã vou escrever o resto. Acabei de ouvir um uivo e aquela sensação de preocupação me invadiu novamente, eles ainda não foram embora, devem estar me caçando.

12 – Lembranças: 2

   Acordei pensando no cão novamente. Ocorreu pela minha cabeça o fato de que eu não sabia quantos anos tinha aquela foto no porta-retrato. Talvez o cachorro já fosse grande quando tudo foi para a merda... Chega! Não vou mais pensar sobre ele, ainda mais porque aquela foto não foi a única coisa interessante que encontrei lá. Depois de não encontrar nada no piso, subi as escadas.
   Como muitas outras casas, o segundo andar consistia em um longo corredor com portas tanto no lado esquerdo quanto no direito. Seis no total. Comecei pelo o lado esquerdo: Um cômodo completamente vazio (talvez um quarto de sobra para guardar aquelas coisas que não queremos que ninguém veja então as pilhamos em um canto), um banheiro e na última porta um escritório. Lá tinha apenas um computador quebrado, um guarda-roupa completamente vazio e um bloco de notas guardado dentro de uma gaveta.
   Eu esperava ver algo interessante escrito, mas me decepcionei. Apenas anotações complicadas que eu não entendi. Mas no final tinha um desenho. Parecia ter sido desenhada por uma criança pequena. Era uma menina com um rabo de cavalo e um cachorro ou algo que parecia um ao lado dela. “EU E O PULGA” estava escrito logo em baixo. Aquilo era demais pra mim. Demais. Só que eu sabia que não podia ir embora ainda, pois ainda tinha mais alguns cômodos para serem revistados.
   No lado direito, havia dois quartos e mais um cômodo. Em um dos quartos havia uma cama de casal e o outro era todo colorido com uma cama de solteiro. Não encontrei nada no de casal.
   Antes de checar o que parecia ser o quarto da menina, fui ver o último cômodo. Queria evitar aquele quarto mesmo sabendo que não poderia simplesmente deixá-lo sem ser checado. O último cômodo do lado direito também estava vazio, pelo visto, eles tiveram bastante tempo de juntar as coisas antes de fugir de lá.
   Agora só faltava o quarto da menina que eu sabia que não poderia mais evitar. Adentri Adentrei aquele cômodo todo enfeitado e colorido, mas, ao mesmo tempo, tão cinza pela falta de claridade do sol, todo seco e desbotado. Senti um aperto no coração pela terceira vez aquele dia. Era a imagem mais triste que eu vira. Eu nunca havia entrado naquele quarto antes, mas aquela visão me era muito familiar. 
   O quarto parecia ter saído de um filme de terror. Os papeis de parede alegres se descolavam cada vez mais, havia papéis amassados espalhados pelo chão coberto de um carpete rosa e poeira era o que não faltava. Não pude deixar de pensar que o quarto talvez fosse um pouco infantil demais para uma menina que aparentava ter pelo menos uns catorze anos, mas eu não era ninguém para julgar, afinal, depois que tudo acaba, as distinções entre pessoas também chegam ao fim. Não existe mais rico, pobre, negro, amarelo... Só existem sobreviventes.
   Em cima da cama, havia alguns animais de pelúcia em uma fileira. Crianças são todas iguais.
   Sem saber exatamente porque, agarrei um dos animais (um elefantinho) e guardei-o na minha mochila. Revirei o que restava do quarto rapidamente, mas também não possuía nada útil.
   Não aguentei mais ficar lá, logo voltei para o hotel. Permanecer naquela cidade por mais tempo poderia não ser bom para mim.

13 – Despedida

   Vou embora hoje. Já não ouço mais os lobos, mas mesmo assim não quero arriscar. Já havia juntado tudo o que pude encontrar e seria um desperdício não continuar minha caminhada. O que traria de bom continuar aqui? Eu apenas comeria toda a comida que encontrara com tanto esforço e depois o que? Após pensar um pouco mais a respeito decidi que ir embora era sim a decisão correta.
   Tomei outro banho, troquei minhas roupas novamente e estava pronto para ir.
   Foi com uma sensação de vazio e decepção que me despedi da cidade. Iria sentir muita falta de banhos e uma cama quente. Quem sabe qual será a próxima vez que vou ter a oportunidade de usufruir desses luxos? Eu sei que é um problema minúsculo comparado com a nossa situação atual, mas é assim que eu me sinto neste momento.  

   Suspirei, dei uma última boa olhada naqueles prédios arruinados e comecei a andar pela longa estrada rachada. 


Godzilla - O Retorno do Rei

De volta! Esse deve ter sido o meu record de tempo longe do blog, mais uma vez renovei meu fôlego, e não apenas isso, eu tive o privilégio de presenciar um filme do Big G. nos cinemas e com os melhores efeitos especiais possíveis, existe motivo maior pra eu voltar a postar?

Eu vi o filme no dia 17, um dia depois de estréia, então acho que devo desculpas por não ter feito isso mais cedo.

Antes de mais nada, vou avisar que a postagem inteira estará cheia de spoilers, então se ainda pretende ver o filme recomendo que espere e leia só depois.

Gareth Edwards é o diretor deste filme, sabe o que mais ele dirigiu? Monsters, sabe o que isso significa? Não? Eu também não sei, não acho o filme em lugar nenhum pra ver, MÁÁÁS eu soube que é um filme muito bem feito, que por conta do baixo orçamento teve pouca participação dos monstros em questão, no entanto contou com uma ótima historia de humanos, e isso tem quase tudo em comum com Godzilla, menos a parte da ótima historia com humanos.

Ok, vamos lá, o filme tecnicamente é sobre animais matusaléns se digladiando enquanto percorrem o globo e vão parar por fim nos EUA, até aí tudo bem, é o que esperamos de um filme com o nome Godzilla, porém, mesmo eu já ressaltando antecipadamente que gostei muito do filme, sinto informar que a historia gira quase que inteiramente no drama humano, e isso não seria um problema pra mim se essa fosse a única parte falha do filme.
Eu já fiz uma postagem aqui sobre Kick Ass, e não sei se em algum momento disse que gostei da atuação do Aaron Taylor-Johnson como protagonista, porque eu gostei, mas vejam bem, uma coisa é o cara interpretar Dave Lizewski que é um personagem adolescente nerd e com cara de paisagem, outra coisa é ele interpretar um militar que acabou de perder o pai e tem três monstros gigantes indo em direção a cidade onde mora sua família e encarar isso com a mesma cara de paisagem. A atuação de Aaron Taylor não chega a ser ruim na minha opinião, mas a falta de expressão do rapaz deixa tudo muito maçante, você simplesmente não espera que ele mude de expressão o filme todo, e de alguma forma o roteirista decidiu que as câmeras deveriam ficar sobre ele por 87% da trama.

Ah sim, mas temos também o personagem do Bryan Cranston, ele protagoniza os primeiros minutos do filme, e eu devo dizer que eles são espetaculares, porém são apenas os primeiros minutos já que ele morre e então só nos resta o Aaron Taylor, aliais, mesmo aparecendo tanto, eu não consegui memorizar o nome do personagem dele, não senti a menor vontade de prestar atenção nesse detalhe, e sim, infelizmente até nos melhores momentos eles deram um jeito de costurá-lo para que fique evidente que os monstros são parte do plano de fundo.

Vamos desviar nossa atenção agora para as criaturas gigantescas e consequentemente nos focar no que o filme tem de melhor.

Existe uma inversão de papéis neste filme na parte dos monstros, eu vou tentar deixar o mais bem explicado possível.
O grande vilão que se alimenta de energia nuclear e tenta a todo custo sobrepujar a raça humana para voltar a reinar na terra é o M.U.T.O (Massive Unidentified Terrestrial Organism / Organismo Terrestre Massivo Não Identificado), exatamente um macho e uma fêmea prontos para construir um ninho e repovoar a superfície, as criaturas tem um design maravilhoso e são assustadoras, ainda mais quando você imagina o que elas podem fazer com o nosso mundo.
O Godzilla por sua vez é quase uma lenda entre americanos e japoneses, o monstro foi visto pela última vez em 1954 (homenagem ao lançamento do filme original de 54), e as bombas de Hiroshima e Nagasaki nada mais foram do que uma tentativa de destruí-lo na época em que ele veio para a superfície pela primeira vez, o paradeiro da criatura agora é desconhecido, mas o professor Serizawa (outra homenagem ao clássico) acredita que o grande monstro virá para restabelecer a ordem no planeta, destruindo os dois Mutos.

E sim, Godzilla é o herói neste filme, não um anti-herói, mas um herói mesmo, o monstro está claramente do lado dos humanos e evita até mesmo em certos momentos causar tanta destruição quanto seus dois inimigos mortais, eu esperava que ele fosse indiferente com os humanos como o Godzilla da década de passada e é um pouco dificil ver o Big G. sendo tão pacífico e tolerante a mísseis e disparos de tanques.
O Visual de Godzilla está perfeito, ele é um animal em todos os aspectos, não sobrou resquício de movimentos humanos nele e ainda sim a criatura se move de uma forma muito familiar, é impressionante a sensação de peso e altura que conseguiram transmitir.

Tirando o lado tolerante, Godzilla não deixa nada a desejar, nós temos a aparência, o rugido, a bravura e... meu deus.... ele até mesmo pode disparar um bafo atômico, definitivamente a cena mais marcante de todo o filme, quando sua cauda começa a acender e as placas dorsais vão intensificando o brilho até que ele vomita um jorro de chamas azuladas contra o Muto fêmea (que é quase do tamanho dele e umas sete vezes maior que o macho).



A historia envolvendo humanos tem seus altos e baixos, o personagem do Ken Watanabe (Dr. Serizawa) é destacado mas não chega a fazer absolutamente nada de importante além de dar palpites sobre o comportamento das criaturas, no entanto existe uma cena muito forte com ele onde com poucas falas ele deixa uma crítica evidente sobre o uso da energia atômica como arma de destruição em massa.
As autoridades são impressionantemente burras, mais do que o normal. Nós vimos o governo sendo eficiente e misterioso em Cloverfield, mas em Godzilla o plano principal é detonar uma bomba ainda mais potente do que a de 1945 bem em cima das criaturas, sendo que elas se alimentam de radiação, seria o mesmo que tentar matar Superman com uma bomba solar, desde a metade do filme ja sabemos que não há nada que os soldados possam fazer e mesmo assim temos que acreditar que todo o plano deles tem alguma chance de funcionar, no entanto, as cenas envolvendo os monstros e humanos são muito boas, eu dou destaque para acena da ponte.... definitivamente um enorme cagaço.

O visual do filme está perfeito, a aura de catástrofe e fim do mundo são bem trabalhadas e realmente acreditamos que o mundo corre perigo, mesmo sem vermos os monstros direto (um bom charme, diga-se de passagem é poder vislumbrá-los de tempos em tempos).

A luta no final, quando os tres monstros finalmente se confrontam é muito entusiasmante, lembrando demais os filmes clássicos da Toho, com o Godzilla apanhando e depois virando a batalha com golpes surpresas, no entanto ao todo houveram três lutas no filme, porém somente a ultima foi mostrada, isso me deixou com um gosto amargo na boca, como se o diretos simplesmente tivesse excluido as cenas, ou que alguem virou a camera no momento exato em que os bichos partiram um contra o outro e escolheu não mostrar o que estava acontecendo.

No final das contas, Godzilla é um filme que agrada mais os fans do monstro por ter cenas muito bem feitas com ele, porém se sustenta apenas pelo fanservice, eu mesmo gostaria de ve-lo muitas outras vezes. Mas se o nome Godzilla não significa nada pra você, sugiro que evite vê-lo pois vai ter muito drama humano desnecessário e pouca briga de monstros, nesse caso é melhor ficar com o Circulo de Fogo mesmo.













13 de abr de 2014

As Notas do Sobrevivente - II

5 – Infância

   Ficarei no hotel aqui mesmo
   Foi no hotel mesmo que eu decidi ficar. A última vez que eu dormi em um hotel foi na minha lua de mel com a minha esposa. Eu separei dela alguns meses depois. Eu sinto muita falta dela.
   O lado bom de ficar aqui é que eu posso escolher o quarto que eu quiser sem pagar por eles, o lado ruim é que metade deles está destruída.
   O hotel tem três andares. Decidi ficar no último, assim, posso olhar pela janela e ver a vista. Não é uma vista agradável, eu sei. Porém, quando estou no alto, me sinto mais seguro. É mentira que eu estarei mais seguro, eu sei disso. Eu sei que isso é apenas um abrigo traiçoeiro nesta grande maravilha arruinada chamada de mundo. 
   Quando eu era criança, gostava de visitar a minha tia. Não por causa dela, eu estava cagando para ela para ser sincero. Ela não gostava da mulher do irmão dela e muito menos de mim. O motivo de eu gostar das visitas era porque eu gostava do apartamento dela. Ela morava no penúltimo andar e a primeira coisa que eu fazia quando ela abria a porta do apartamento dela era dar um abraço forçado e sem vontade nela e correr em direção à janela. Eu ficava lá o quanto eu pudesse, vendo as engrenagans engrenagens da sociedade funcionar como deveriam lá embaixo. Vários ternos, vários saltos altos e vários trapos pedindo esmola, deitados em becos escuros. Eu sentia pena dos trapos, aquilo estava errado, aquela máquina estava errada, por mais que parecesse funcionar corretamente.
   Decidi ficar no quarto à esquerda, no final do corredor. Eu pensei em ficar no da direita, por simplesmente estar mais bem arrumado do que o outro, pelo menos o mais próximo de arrumado que um quarto consegue ficar quando o mundo em si é uma enorme bagunça. Porém, quando entrei lá eu mudei de ideia. Eu vi um casal. Não sei se era velho ou jovem, estavam tão pútridos que não dava para diferenciar. Mas uma coisa dava para saber, eles morreram juntos, como nos filmes. Estavam abraçados. Os dois com um buraco de bala no crânio. Haviam eles desistido e decidido acabar com tudo juntos? A única coisa que eu sei era que a arma ainda jazia no chão, com balas. Eu precisava urgentemente de uma arma, da última vez que necessitei de uma eu quase morri.
   Estou muito fraco, com certeza é a fome. Não dá mais para adiar, preciso procurar comida agora.
  
6 – Segredos Esquecidos

   Eu quase entrei em desespero. Todos os supermercados e as lojas de convaniência conveniência foram completamente saqueados. Eu sei que eu já deveria estar preparado para isso, mas você não consegue raciocinar direito com tanta fome e logo começa a ficar irritado.
   Correndo pela cidade, procurei horas por qualquer coisa comestível. Por uma barra de doce, uma lata de milho... Eu estava quase desistindo quando encontrei algo muito melhor. Talvez um anjo da guarda ou qualquer coisa parecida decidira me ajudar.
   Logo após desistir de procurar em vários tipos de estabelecimento, passei a vasculhar casas. Na terceira, havia um compartimento escondido em um quarto no segundo andar. Era um alçapão camuflado, apenas visível por não estar totalmente fechado. Ele estava quase, mas não completamente vazio. Ainda sobravam algumas latas de comida e pacotes selados. Aquela casa deveria pertencer a algum pai de família neurótico que pensava que o mundo poderia acabar a qualquer momento. Pessoas como essas costumavam ser julgadas e viravam motivos de chacota. Que ironia.
   Guardei tudo o que podia na mochila e voltei para o hotel, não quis ficar por lá. A cidade podia estar vazia, mas não queria me arriscar, me esconderia até decidir o que fazer.

7 – Calor
  
   Eu sinto muita falta do sol. Já faz um bom tempo desde que não é possível avistá-lo completamente. Tudo o que você vê é seu formato brilhante atrás de um cobertor de nuvens cinza e tristes. O lado bom é que agora você pode olhar para ele por minutos seguidos e seus olhos não vão doer muito. Não sei se isso é exatamente uma coisa boa.
   O mais estranho disso tudo é que mesmo com o sol enfraquecido, o clima é estranhamente abafado. Isso deve ser resultado de algum distúrbio natural causado pelo homem. Na época em que existiam meios de comunicação em massa era possível discutir sobre estes problemas ambientais de uma maneira mais crítica. Ou até mesmo comunicação em geral, quando você podia conversar com o dono da banca sobre as notícias enquanto comprava seu jornal matinal para ler no ônibus ou no metrô a caminho do trabalho.
   Talvez o pior de toda essa situação seja a falta de ter alguém para culpar. Tudo bem, eu sei que a culpa é de um monte de gente, de um conjunto, mas eu queria poder culpar alguém especificamente. Queria apontar o dedo na cara dele e dizer “a culpa é sua.”.
   Queime, mate, suje e queime de novo. No final ninguém parece celebrar a meta que foi atingida, afinal ela é amarga, seu gosto não é bom e ela machuca e humilha. Nosso orgulho que causou a ruína dessa maravilha que me encontro.
  
   Comparando com meus registros anteriores, consegui notar uma melhora na minha escrita e estou feliz por isso. Isso se deve também ao fato de que voltei a ler há pouco tempo. A sanidade é doce, doce... Por isso eu quero que ela fique.
   Percebi que minha escrita não foi a única habilidade afetada por não ser praticada por meses seguidos (ou até anos quem sabe, não tenho a mesma noção de tempo de antigamente e quase todos os relógios que encontro estão parados). Notei também que minha leitura está muito ruim e então estou lendo em voz alta para praticar. Eu falo tão pouco diariamente que até mesmo minha voz soa estranha para mim.
   O livro que eu achei no fundo da minha mochila é de um escritor americano que era muito famoso na época dele e conta a história de um menino caipira. É engraçado e divertido. Nem sabia que eu conseguiria sorrir nesta única maravilha arruinada que chamamos de mundo.

9 – História

   Faz uma semana que eu estou alojado neste hotel (não sei se “alojado” ainda é um termo existente) e faço viagens frequentes à biblioteca. Redescobri o prazer da leitura. Estes personagens fictícios são meus maiores companheiros agora.
   Ler parece fazer o tempo passar mais rápido, até me faz esquecer a atual situação da humanidade. Mesmo nas piores situações você deve se manter são e seguir em frente, não interessa se você foi demitido do seu emprego ou se sua espécie está enfrentando uma eventual aniquilação.
    Agora pouco estava lendo “Por quem os sinos dobram” de Ernest Hemingwey Hemingway, fala sobre um moço que quer explodir uma ponte em meio à guerra civil espanhola ou algo assim. Estou envergonhado em admitir que eu não consigo me lembrar de vários eventos históricos, (nesse caso a guerra civil espanhola) mas creio que isso não importa mais. Estamos quase todos mortos, qual o sentido de historiar eventos? Os atuais sobreviventes são provavelmente uma das últimas linhagens de seres humanos e os filhos destes provavelmente não vão durar muito. A única saída seria ensinar outros animais a lerem, como os lobos. Tenho ouvido muitos lobos ultimamente. 
   Mas acho que essa é uma ideia idiota... É claro que é uma ideia idiota, ensinar animais a ler não vai adiantar nada, a única maravilha restante está se deteriorando a cada dia. Logo tudo vai acabar e o ser humano não vai ser a única raça a sumir para sempre. Mas com certeza foi o principal causador dessa coisa toda.
   Humanos idiotas...  
   Ah sim, hoje eu tive uma surpresa. Eu abri o chuveiro do banheiro, só por abrir mesmo e por incrível que pareça caiu água. Quase todos os lugares que eu visitei desde que tudo foi pra merda não possuíam água.

   Esta foi a primeira vez em meses que eu tomei um banho de chuveiro. Não sei exatamente de onde vinha aquela água, mas parecia limpa, então me arrisquei. Mas antes, fiz uma busca rápida no supermercado mais perto, que ainda havia produtos espalhados que eu ignorei por julgar não serem importantes e consegui xampu e sabonete. Achei até um barbeador elétrico, para cortar meu cabelo e minha barba, que estavam quase cobrindo minha cara. Tomei um banho muito longo, usei quase um sabonete inteiro. O chão estava imundo quando terminei, mas eu me sentia feliz... E limpo. Depois, vesti uma jaqueta e outras roupas novas que eu encontrei. A minha antiga estava tão suja, encardida e cheia de bichinhos que te fazem coçar. Devem ser pulgas, então decidi jogar tudo fora.


28 de mar de 2014

As Notas do Sobrevivente - I

As notas do sobrevivente - Prólogo

   É difícil caminhar com toda essa roupa. O peso da minha mochila e dos objetos que eu carrego também dificulta minha caminhada ainda mais, mas desde que tudo acabou, as pessoas começaram a carregar tudo o que podiam, com o constante medo de serem roubadas.
   Uma vida atrás eu era um escritor frustrado. Eu gostava de escrever, mas escrevia mal. Disseram-me que uma carreira seria um sonho impossível. Agora já não resta mais nada. Eu ainda prefiro a frustração a nada.
    É a primeira vez que eu escrevo desde que tudo foi pra merda. É estranho. Antigamente, quando o mundo era mais verde e menos cinza, eu conseguia colocar as palavras no papel de uma forma mais fluída e agradável. Eu era mais são naquela época.
   Antes havia sete maravilhas no mundo. Consigo vê-las na minha mente neste exato momento. Agora, todas elas estão em pedaços, ou esparramadas por aí, ou enterradas a alguns palmos neste solo sem vida. Hoje, o mundo inteiro é uma única maravilha arruinada. 
   Essa é a primeira vez que eu escrevo desde que tudo foi pra merda. Pretendo escrever mais daqui pra frente.
   Isso vai ser um prólogo. Um prólogo... Isso é um tipo de introdução pra uma história... Alguns livros que eu costumava ler possuíam prólogos.

1 – Fome

   Eu estou com muita fome. Preciso encontrar uma cidade e rápido. Lá precisa ter comida.
   Hoje, tive o pior pesadelo da minha vida. Foi tão real que eu acordei em lágrimas e estou me sentindo mal desde então. Nele, minha filha estava viva. Acho que a fome que estou sentindo agora deve ter afetado o meu sono, porque nele eu estava comendo o braço dela, da minha garotinha, do meu anjo. Ela gritava e chorava, implorando para eu parar, mas eu apenas dizia suavemente para ela que ela só precisava aguentar um pouco, que eu logo estaria sassiado saciado e poderíamos dar uma volta no parque mais tarde. Eu a encarava com olhos bondosos e a boca cheia de sangue e pequenos pedaços de carne. Pedaços da pessoa mais preciosa que eu tive na vida.
   Eu reli o prólogo que escrevi ontem e cheguei à conclusão de que não estou bem. Preciso acorrentar o que resta da minha sanidade para que ela não possa fugir.
   Eu já deveria ter me matado, não sei por que me importo em continuar andando...
   Deus, se você estiver lendo isso, saiba que eu quero te matar com as minhas próprias mãos. Você abandonou a todos nós e eu odeio você. 

2 – Sonhos

   Não tive pesadelos esta noite. Sonhei com pássaros. Havia muitos pássaros, de todos os tipos. Só disso eu me lembro. Às vezes eu gostaria de dormir pra sempre. Apenas pular de um sonho para o outro, de uma maneira aleatória. Mas sem pesadelos. Não quero sonhar com nada parecido com o que sonhei na noite passada.
   Tenho uma boa notícia. Encontrei uma lata de atum no fundo da minha mochila. Pude até sentir uma lágrima escorrendo de fecilidade felicidade, quente e de vagarosa. Não sei como pude me esquecer daquela lata.
   É claro que aquilo não foi o suficiente para me satisfazer completamente, mas pelo menos não vou morrer de fome.
   Tenho outra boa notícia. Avistei uma cidade. Não parece muito grande, mas acho que consigo alcançá-la com umas cinco horas de caminhada. Tem que haver comida lá.
   Enquanto caminhava, não consegui parar de cantar uma canção. Uma canção que eu gostava de cantar para minha filha quando ela tinha uns dois anos. Era uma música que falava sobre um pássaro negro voando. Faz-me lembrar das manhãs de domingo, com orvalho e café. Como eu sinto falta do gosto de café. Talvez eu esteja cantando-a por que sonhei com pássaros.
   Deus, eu quero que me perdoe pelo que eu disse ontem. Apesar de tudo, eu ainda tenho fé em você, como sempre tive. Eu disse aquilo porque estava me sentindo muito mal... Amém.

3 – Sede

   Hoje foi um dia triste. Quer dizer, todos os meus dias são assim porque eles seguem uma mesma rotina desagradável. É bem estranho, sua mente parece se desfazer e você acaba simplesmente não ligando mais. Você anda, você segue em frente mesmo sem saber exatamente o motivo. Hoje, porém, foi um dia mais triste do que costuma ser.
   Eu vi um cachorro. Ele estava deitado na beira da estrada e estava morrendo. Quando me aproximei, vi que ele ainda estava com olhos abertos e respirava lentamente.
   Eu me sentei ao lado dele e o acariciei até ele fechar os olhos de vez. Enquanto eu passava os dedos em seus pelos sujos e manchados, ele fazia aquele som parecido com choro que cães costumam fazer, parecia até que estava agradecendo.
   Derramei um pouco de água na palma da minha mão e ofereci a ele. Ele bebeu tudo em um instante. Quando finalmente parou de respirar, eu chorei. Não exatamente pela morte dele, mas sim pelo o que ela representava. Todas as coisas que eu entro em contato parecem morrer. Tudo parece querer fugir de mim. Tudo passa a fazer parte do mesmo solo morto, pertencer àquela única maravilha arruinada chamada de mundo.
   Cada dia que passa tudo fica mais cinza, tudo fica mais seco.
   Eu ainda não cheguei à cidade. Ela estava mais distante do que eu pensei. Mas agora tenho certeza que ela está perto.
   Vou continuar a andar assim que o sol se erguer novamente. Aquele sol que perde seu brilho e seu calor a cada dia que passa.  

4 – Hotel

   Estou tão cansado, mas finalmente estou aqui. Porém, não posso dizer que eu estou satisfeito. Não tem ninguém nesse lugar.
   Eu disse que queria chegar logo para poder encontrar comida, mas eu menti. Quer dizer, não era bem uma mentira porque eu realmente preciso comer, mas o que eu queria mesmo encontrar aqui eram pessoas. Faz meses que eu não converso com alguém. A solidão vai te correndo e você só percebe bem depois, quando tudo que resta é um buraco dentro de você.

   Eu estou tão cansado que vou procurar comida depois de uma soneca. Eu sei que dormir com fome não é bom, mas no momento não me importo se eu morrer. Tem um hotel aqui perto, vou dar uma olhada. 


25 de mar de 2014

Não é assassinato, é sobrevivência

   Para mim, videogame sempre foi, mas ultimamente está sendo cada vez mais reconhecido como arte ao invés de uma simples forma de entretenimento. Se você discorda dessa ideia, convido você a pensar duas vezes. 


   The Last Of Us é um jogo em terceira pessoa com elementos survival horror (não, o jogo não dá medo) desenvolvido pela magnífica Naughty Dog, mesma desenvolvedora da saga Uncharted e, acredite se quiser, Crash (aquele jogo do play 1 da raposinha sorridente). 
   TLOU se passa em um mundo pós-apocalíptico, em um mundo desolado por uma mutação causada por um fungo chamado cordyceps, que na verdade é um fugo real que assola diversos tipos de inseto. Se você quer ter uma noção de como esse fungo age e como o hospedeiro fica após ter sido completamente dominando, sugiro que realize uma rápida pesquisa no google. Você não vai ser arrepender, é bem legal. 
   Enfim, não vou perder meu tempo falando sobre o fungo em si porque essa não é a ideia do post.
   O jogo começa mesmo, em Boston, narrando a história do protagonista Joel, que perdeu sua filha vinte anos atrás em uma cena de partir o coração. Joel é um homem amargo, que não superou a morte da filha e vive dia após dia apenas com o intuito de sobreviver, nada mais. Junto com sua parceira Tess, ele trafica armas neste mundo cheio de seres infectados, bandidos, quarentenas, grupos militares que aplicam rigorosamente uma lei contra os infectados e até mesmo uma milícia rebelde que se denomina Vaga-lumes. Ingredientes que não podem faltar em uma boa e velha história aonde o mundo é um lugar completamente arruinado.

   

   Tess diz a Joel que um certo infeliz roubou algumas armas deles (que também são roubadas) e o convence a ir atrás do indivíduo que eles descobrem mais tarde que entregou as armas para Marlene, a líder dos Vaga-lumes. Vários eventos ocorrem e culminam no encontro de Joel e Ellie, a outra protagonista. Ellie é uma adolescente de catorze anos que parece a Ellen Page e que nasceu e cresceu no mundo pós-fungo e sabe muito pouco sobre o anterior, aonde as crianças de sua idade frequentavam escolas, passeavam no shopping, roubavam dinheiro dos pais para poderem se embebedar entre outras aventuras da juventude.
   Marlene, propõe uma oferta a Joel e Tess. Ela diz que se eles entregarem Ellie para um grupo de Vaga-lumes no centro de Boston, devolverá em dobro a quantia de armas roubadas. Relutante, Joel é convencido por Tess a aceitar a missão e assim a jornada se inicia, onde logo depois, é descoberto que Ellie é uma infectada que não foi transformada em um ser mutante como os outros por alguma razão e acredita que sua imunidade pode resultar em uma cura para a raça humana.

O mais interessante de The Last Of Us não é o maravilhoso e detalhado mundo em qual a história foi desenvolvida, e sim o seu lado humano, influenciado por livros como A Estrada de Cormic Mccarthy e filmes como Extermínio, dirigido por Danny Boyle. Basicamente, ao longo do jogo, Joel e Ellie estabelecem um laço extremamente forte e podemos perceber que a garota começa lenta e implicitamente, a se tornar substituta de Sarah, falecida filha de Joel. Os dois não são lá grandes amigos no começo do jogo, mas logo percebem de que a presença um do outro se torna essencial para poderem sobreviver ao horror de viver em um mundo como aquele, aonde Ellie aprende, precocemente, que você simplesmente precisa não apenas fazer decisões e escolhas difíceis, mas também entender que para você poder sobreviver, outros devem morrer. É aí que jaz o aspecto mais forte do jogo na minha opinião. Os personagens são extremamente bem desenvolvidos e são capazes de demonstrar suas emoções de uma forma demasiadamente humana, capaz de entreter, chocar e emocionar o jogador ao longo da campanha. Tudo isso turbinado com as maravilhosas dublagens realizadas por grandes nomes como o Troy Barker (Catherine, Bioshock Infinite), Nolan North  (Uncharted, Deadpool) Ashley Johnson (Ben 10 e... Ben 10) entre outros. 
   Outro aspecto interessante de The Last Of Us é que ele consegue realizar algo que poucas histórias pós-apocalípticas conseguem, que é acertar em cheio ao mostrar a verdadeira natureza humana. No jogo, é difícil definir quem é bom e quem é ruim. As pessoas são diferentes e reagem as situações extremas de formas diferentes, coisa que faz você pensar duas vezes antes de apontar e dedo e fazer acusações e o final é a plena representação desse dilema. O jogo termina com um ar melancólico, mas realista que deixa você coçando a cabeça e se perguntando "quem está correto e quem está errado?". 

   Em questão aos aspectos físicos, The Last Of Us merece aplauso. Tudo foi desenvolvido com o máximo de cuidado e dedicação. 
   O mundo é diversificado e detalhado, levando você a esgotos, cidades abandonadas entre outros locais cobertos de vegetação, demonstrando que a natureza clamou o que é dela por direito. 
   A dublagem, como citei é poderosa e impecável. 
   A trilha sonora é magnífica, composta pelo talentoso Gustavo Santaolalla que compôs a trilha sonora de diversos filmes de sucesso, como Biutiful, Brokeback Mountain, Babel e diversos outros. 
   A jogabilidade é pratica e tudo responde muito bem. Ela utiliza o aspecto "survival" de forma inteligente, que faz você ter cuidado com seus mantimentos e fazer estratégias para não ser destroçado pelas criaturas e outros inimigos. 
   Sim, TLOU é sem dúvida um dos melhores jogos que eu já joguei e um dos melhores já feitos, bem sucedido em praticamente todas as suas tentativas, provando que um jogo é sim uma forma de arte para ser levado a sério e que videogame é uma excelente ferramenta não apenas para testar as suas habilidades, mas também é uma plataforma para se contar uma boa história. Coisa que Beyond Two Souls falhou miseravelmente, mas esse assunto talvez fique para outro dia xD.

   A Naughty Dog não se satisfez com apenas um jogo, decidindo ampliar ainda mais seu universo, com um uma sequência sendo considerada, uma dlc, uma HQ, um documentário e agora um filme sendo criados. 
   A Dlc chamada "Left Behind" e conta a história de Ellie e sua Amiga Riley, em que os eventos ocorridos se passam antes dos acontecimentos do primeiro jogo. A Dlc também é excelente, expandindo ainda mais o personagem da Ellie e suas relações. A história narra um encontro das amigas em uma zona de quarentena e possui os mesmos aspectos positivos do jogo em relação a história e a jogabilidade.

   A HQ se chama American Dreams, que foi lançada antes da Dlc mas conta os eventos anteriores aos acontecimentos desta. A HQ tem apenas quatro edições e infelizmente eu só encontrei em inglês, mas ela foi escrita pelo roteirista do jogo, Neil Drukmann e desenhada pela artista Faith Erin Hicks, criadora de uma webcomic chamada de "Demonology 101" e vale a pena dar uma conferida se você entende a língua.
   Um documentário sobre os bastidores do jogo foi lançado em 2014, com o nome de "The Last Of Us: Grounded" e conta sobre o processo criativo, a dublagem, a trilha sonora e cobre até mesmo outras informações curiosas.

   O filme, que foi anunciado dia 06 de março de 2014, vai ser produzido pelo mestre Sam Raimi (Homem-aranha, Uma noite alucinante, Arraste-me para o inferno) e será escrito por Neil Druckmann, que como já citei, é um dos diretores e roteirista do jogo. De acordo com Neil, o filme adaptara o mesmo enredo do jogo e promete ser a melhor adaptação cinematográfica de videogame já feita, que, cá entre nós, não deve ser uma tarefa muito difícil de se realizar.

   Bom companheiros, por hoje é só. Espero que tenham curtido esse humilde texto a respeito de um dos jogos mais aclamados e respeitados atualmente. Como um bônus, vou deixar o link do citado documentário, que dá para ver completo no youtube no canal ofician da PSN (Ps: Só para quem entende inglês.)





4 de mar de 2014

Uma Análise Sobre o Antigo e o Novo Robocop

Olá pra vocês! Espero que estejam muito bem.
A postagem de hoje vai fazer eu me sentir muito mais velho do que sou. Veja bem, eu SEMPRE falo sobre coisas que foram criadas muito antes de eu nascer como se tivesse testemunhado sua estréia no mundo, mesmo que a maioria delas eu apensas tenha conhecido através de VHS/DVD/Pirate Bay etc.

Eu nasci na década de 90 e até meados dos anos 2000 eu era uma criança estranha e medonha que conhecia vagamente algumas coisas da cultura pop, hoje eu sou um adulto estranho e medonho que conhece vagamente uma vida social saudável e cria postagens sobre coisas estranhas e medonhas neste blog estranho e medonho para pessoas.... lindas e... cativantes.... ^ ^

E desde pequeno eu conheço Robocop, claro que não fazia muita distinção entre a qualidade do primeiro ao terceiro filme, mas hoje é claro que vou analisar o único que pode ser realmente considerado um filme marcante e até mesmo formador de opiniões que é o primeiro dirigido por Paul Verhoeven.


Robocop saiu em 1987 e contava a historia de Alex Murphy, um policial da obscura e suja cidade de Detroit, que acaba morrendo e tendo seu corpo completamente destruído em um tiroteio contra uma gangue. Os restos de Murphy são imediatamente mandados para fazerem parte de um projeto da nova corporação que agora tem total controle sobre as forças policiais de Detroit, a OCP (Omni Consumer Products), que pretende criar uma nova cidade em cima da velha Detroit chamada Delta.
Murphy acorda então como uma máquina, construída junto de alguns dos seus restos mortais, porém tendo somente seu rosto com aspecto humano, todas as suas emoções foram retiradas e dele restou apenas seu trabalho como um policial, agora blindado e incansável.

Robocop era um filme que usava de uma frieza absurda para uma produção tão abrangente, não se tratava de um filme B, era um projeto ambicioso porém de orçamento modesto que trazia uma crítica ao imperialismo que marcaria uma geração inteira, e curiosamente (mas sem nenhuma surpresa) um público infantil considerável, o que rendeu duas continuações água com açúcar.

A forma como tudo parece ser manipulado pelo presidente da OCP com aquela crueldade e superficialidade direcionada a importância à vida humana faz você pensar no quão próximos de bonecos nós somos para algumas corporações. O filme também flerta com a hipocrisia e cinismo do povo americano, mostrando notícias e um programa de humor nas TVs da cidade, onde tudo parece sensacionalista, alterado e coisas que deveriam ser sérias se tornam piada para o povo.
 

Quanto ao protagonista, pode-se dizer que a trama gira em torno da esperança de que ele recupere sua humanidade e que seu lado humano (ou o que sobrou dele) consiga ter o controle sobre a máquina.
Robocop surgiu em uma época onde a tecnologia era temida por muita gente, as pessoas morriam de medo só de imaginar que o futuro fosse tomado por máquinas e que estas se tornassem muito superiores ao resto da população em termos trabalhistas e intelectuais. O reflexo disso no filme de 87 é que ele chega até mesmo a ser bizarro com uma visão exagerada, porém realista de como robôs tendem a ser usados no futuro, e podemos até mesmo dizer que algumas coisas estavam certas quanto a utilização de máquinas de combate.

Os efeitos especiais eram tão bonitos que o filme não conseguiu ficar datado, até mesmo a movimentação em stop-motion do robô assassino ED-209 é um charme a parte hoje em dia, sem falar que torna o maldito muito intimidador.
A armadura de Robocop que o ator Peter Weller usava nas filmagens era extremamente desconfortável, pesada e quente, ele é considerado até hoje um dos atores a fazer um dos papéis mais difíceis do mundo, e o próprio Peter afirma que poucos atores sofreram ou vão sofrer como ele em um estúdio.

Robocop teve um impacto inacreditável na época em que saiu, as pessoas estavam depressivas e sem motivação em plena era Raegan, com as grandes industrias intimidando qualquer vestígio de crescimento ao seu redor.


E então chegamos ao filme Robocop de 2014

Eu confesso que estava atolado em preconceito quanto a esse filme, o trailer que havia saído um tempo antes do lançamento simplesmente me deixou decepcionado e eu não esperava nada além de um mero blockbuster.

Então percebi que ele estava sendo muito bem elogiado, e até mesmo recebi uma certa insistência de um amigo para deixar meu preconceito de lado (mas isso é um pouco difícil quando a insistência vem de uma pessoa que acha filmes atuais melhores do que os antigos). E é por causa disso que antes de falar do novo Robocop eu pretendo fazer uma observação sobre o cinema atual e o das décadas passadas.

O que você espera de um filme hoje em dia? Quando você vai ao cinema, espera ver alguma coisa além de CGI nos efeitos especiais, ou uma história que por mais que marque você será esquecida pela maioria?
Uma coisa que ficou mais do que clara nos últimos anos é que a partir do momento em que Hollywood percebeu que entramos em uma era onde QUALQUER coisa pode criar vida nas telonas, uma onda massiva de mesmices enlatadas choveu nas bilheterias, o resultado foi que aos poucos nos acostumamos e praticamente nenhum filme nos surpreende mais, porque...oras, você SABE que não existem mais monstros impossíveis de serem criados, cenários fantásticos são maravilhosamente ultra-detalhados, e isso é o mínimo que alguém espera de um filme fantástico.
Por um lado, podemos dizer que atingimos um grande novo patamar dos efeitos visuais, mas por outro já podemos dizer que é o mesmo que estar sonhando e sabermos que é um sonho, já que a técnica de criação será sempre a mesma.

Então, imagine agora em tempos modernos, onde todo mundo está acostumado com tecnologia e a sua maior preocupação é se o motoqueiro que entrega a sua pizza errar o caminho.
O quanto um Robocop significa hoje em dia? E mesmo que ele tenha uma crítica forte a fazer, ela vai ter algum efeito sobre a população?

Acreditem em mim, o novo filme se enquadra logo na segunda situação acima.
Eu devo dizer que fico muito orgulhoso que o remake de Robocop tenha sido dirigido logo por José Padilha, consagrado graças ao marcante Tropa de Elite. Fico mais orgulhoso ainda ao perceber que o diretor brasileiro não tentou recriar o filme de 87, mas sim fazer um equivalente para os dias modernos, tendo um outro ponto de vista e um alvo de crítica muito mais socialista.

Agora Alex Murphy não morre crivado de balas, ele tem seu corpo inutilizado graças a explosão de seu carro, tramada por uma gangue da qual mandou seu parceiro para a UTI em um tiroteio. Detroit é um linda cidade futurista que se encontra dividida entre a aceitação de robôs policiais nas ruas e a aversão da maioria às máquinas.
Para conseguir uma aceitação do público, a ideia de uma máquina com mente humana é cogitada e o projeto Robocop entra em ação graças ao financiamento da OCP com um genioso médico que trabalha com próteses mecânicas de altíssima complexidade.
O maior diferencial aqui é que o nosso novo Robocop começa exatamente como um humano, sendo limitado apenas pelo fato de seu corpo ser de metal e suas expressões faciais estarem reduzidas, o rosto de Murphy também é mostrado com muita frequência, um contraste ao filme antigo onde o personagem so tinha sua boca visível.
É curioso ver como agora, justamente quando a historia mostra uma máquina precisando receber aceitação do público, o produto vendido é quase inteiramente humano.
Nós temos também um destaque para a família do protagonista, que ao invés de abandoná-lo, procuram uma chance de fazer as coisas voltarem a ser o mais próximo do que eram antes.

Agora não temos uma programação americana mais cínica e estúpida na TV, no lugar vemos um noticiário sensacionalista que tenta convencer a população americana a aceitar o uso de máquinas, a ideia funciona e conseguimos ter uma boa noção de como a informação que nos é passada quase nunca condiz com a realidade.
O desprezo pelo valor humano é tão bem explorado quanto no filme clássico, me arrisco até a dizer que é muito mais bem embasado, nós sabemos muito bem o que é importante para cada personagem na trama e na maioria das vezes vamos nos identificar com certas atitudes e reações tomadas por eles.

O aspecto do Robocop foi o que incomodou muita gente, eu mesmo digo que não só neste filme mas em qualquer outro filme moderno a tecnologia futurista que nos é apresentada não me agrada nem um pouco, tudo é polido, tudo reflete, tudo é simplista, exatamente como a tecnologia que temos agora (é a lógica das coisas eu sei, faz todo sentido um robô policial ser ágil e mais leve do que pesado e lento, mas o que é atual é tão sem graça... >.<).

O novo Robocop é de longe um filme muito menos frio e também triste em poucos aspectos, ele se foca em um lado frenético da ação em alguns momentos e mesmo trazendo uma crítica totalmente contextuada e até mesmo mais forte para os nossos tempos muito provavelmente não vai significar muito para os telespectadores atuais. Como eu disse, nós estamos em uma geração onde nada mais impressiona e as coisas tendem a piorar cada vez mais, o surgimento de tantos remakes, reboots e adaptações já comprova isso.  


Então é isso minha gente, eu recomendo o filme, se você está pensando no que ver no cinema eu acho que Robocop é uma boa pedida, tente vê-lo como um outro filme, uma versão moderna e não o mesmo de 87, eu garanto que será satisfatório.